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UM POUCO DE "MACHADÃO"
Há 100 anos, morria no Cosme Velho o escritor da Gamboa, que se definia como um “puro carioca”
"A vida é boa!", teria dito o escritor Machado de Assis em seus suspiros finais, depoisde abdicar da extrema-unção por não querer dar uma de hipócrita.
Em sua casa, na Rua Cosme Velho 18, no dia 29 de setembro de 1908, pouco antes de morrer, aos 69 anos, cercado por amigos da Academia Brasileira de Letras, que fundou, Machado se despediu da vida com a mesma ‘pena da galhofa e a tinta da melancolia’ com que escreveu sua obra.
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O autor cresceu no Morro do Livramento e nasceu na casa indicada na foto acima, de 1920. |
Rua do Ouvidor, no tempo de
Machado de Assis
O MUNDO GIRA NA RUA DO OUVIDOR
Centro da cidade era ponto de encontro de intelectuais e Machado publica seu primeiro poema.
A Rua do Ouvidor era chamada por Machado de ‘gazeta viva’.
Confeitarias, joalheiros e a livraria Garnier faziam a festa da Corte e dos intelectuais. O Centro do Rio fervilhava e o jovem Machado flanava livremente. No Largo do Rocio (atual Praça Tiradentes), ele conhece a tipografia Dois de Dezembro e é apadrinhado pelo livreiro e editor Paula Brito. Havia 25 periódicos na cidade e
era na loja de Paula Brito que os jovens intelectuais se reuniam, como Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e José de Alencar — patrono da cadeira 23, de Machado, na ABL. Em 1854, o autor consegue publicar seu primeiro poema: ‘Soneto’, no obscuro ‘Periódico dos Pobres’. |
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A pergunta é uma só: por que,100 anos depois de sua morte, no Ano Nacional Machado de Assis, ainda se deve ler o autor? Poeta, crítico, jornalista, dramaturgo,contista, cronista e romancista,Joaquim Maria Machado de Assis dissecou a fragilidade e sordidez do ser humano em suas obras revolucionárias, como ‘Dom Casmurro’ e ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’. Foi igualmente irônico e atemporal em contos, como ‘Um Apólogo’, em que falava da disputa de classes através do embate entre
agulha e linha. Tamb ém retratou em suas crônicas o Rio do século 19, que saía de condição de vila rural para capital urbanizada.
“Sou puro carioca”, defi nia-se ele, que enfrentou todo tipo de
adversidade antes de se fi rmar como ‘gênio da literatura’: era
epil éptico — morreu de câncer na língua —, gago, mulato, viveu 49 de seus 69 anos no Brasil escravocrata, de origem modesta, fi lho de pintor e lavadeira, e autodidata. Nas cercanias do Morro do Livramento (atual Providência), na Gamboa, onde morou até os 15 anos, vendia doces. Foi um sobrevivente, numa época em que as epidemias assolavam o Rio: aos 6 anos perdeu a irmã, vítima de varíola.
Tímido e recatado na vida privada, por conta da ironia virou autor
popular. Seus contos e romances foram publicados em jornais e revistas.
Mas o sustento vinha da carreira de funcion ário público. Teve cargos no ministério da Agricultura e dos Transportes.Biografado por muitos estudiosos, a vida e as interpretações da obra de
Machado ainda guardam enigmas. Ent ão, que ele defi na sua obra: “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto”.
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