Não há mais nada a perder. Pensamento retumbante, pressionava o crânio, "não há mais nada a perder". Cedera tanto, tantas vezes. Aquiescia quase sempre. Agora, não poderia perder mais nada.
Com todo o ódio há muito guardado, com as exasperações daquela tarde, com aquela febre e a dormência na parte frontal da cabeça, estraçalhou a porta de vidro da repartição pública com um pedaço de poste metálico. Ignorou vozes e advertências, entrou pelo salão e continuou a destruição, vasos, quadros, lixeiras e lustres. Sentia que uma certa música abarcava todo o ambiente. Estava imerso em uma penumbra, não distinguia muito bem os objetos, pisava em falso, gritava, cortou-se muitas vezes. Um crescendo comandava seus gestos, sua ira dissonante conduzia a coreografia e a ausência parcial dos sentidos fazia irromper a cadência magistral. Risos nervosos, vaias e olhos estupefatos eram os seus espectadores. Não ousavam impedir a apresentação tonitruante daquele homem e sua barra de ferro, incontroláveis e contundentes. As janelas laterais foram estilhaçadas, os transeuntes do lado de fora correram. Contudo, aos poucos sua força arrefecia, o instrumento pesava em suas mãos, um pouco da raiva saíra, mas ainda sentia-se preenchido. Abriu a boca para expulsar o preenchimento, berrava menos, chorava mais, caiu de joelhos sobre os vidros. O peito estava cheio e nada poderia ser feito para esvaziá-lo. Jogou a cabeça para trás e bateu-a violentamente contra o chão. Gosto de lágrimas, cheiro de suor e muito sangue. Rosnava, balbuciava, delirava, ofegava. Mantinha a cabeça baixa e agora percebia que as luzes estavam acesas. Desde o princípio.
O circuito interno de segurança registrou as cenas de depredação com uma qualidade de imagem incomparável. Nunca antes algo parecido havia sido filmado com tanta habilidade. A câmera girava, rodopiava, acompanhava cada detalhe. Direção impecável.
Rudimentar acesso de loucura? Vandalismo? Alguns se perguntavam "como passam cenas tão violentas nesse horário, e as crianças?" Mas esse debate se daria um pouco mais tarde, hoje o importante era contemplar a ação devastadora de um homem desesperado. Quais as suas motivações?
Foram essas as imagens escolhidas para inaugurar o telejornal do horário nobre. Nos bares, as pessoas procuravam os melhores lugares para assistir àquela brutalidade; nos lares, todos interrompiam suas refeições, o alimento parava na boca, era impossível continuar mastigando. Largavam os pratos cheios, "ah, estou sem fome".
Dias depois, uma entrevista exclusiva com o homem. Frases desconexas, o público criticou a "insanidade da criatura". Ele mencionou algo sobre um mendigo que aguardava o sopão numa noite fria e fora atingido por um saco plástico com urina; comentou os custos envolvidos na visita de um representante religioso ao país; falou sobre os pedintes infantis da Cinelândia, Praça da Sé. "Mas o que isso tem a ver com sua fúria enlouquecedora?"
Péssimo personagem, o homem foi logo substituído pela imprensa. Não demorou muito e apareceu o caso de um bebê deixado na lagoa da Pampulha; depois, uma menina que havia sido arremessada da janela do apartamento pelo próprio pai. Entretanto, os casos não possuíam nenhuma conexão com o do homem da barra de ferro.