E estava tão bêbado naquele início de noite de setembro, mas tão bêbado, que a cachaça "Parati" acabou por lhe abrir a porta, e por ela ele escapou. Algo havia se rasgado, talvez um tecido, e não se sabe se o cerebral ou se a trama invisível onde se entrelaçam os acontecimentos que se rompera; em seu estado não atinava muito com a explicação que lhe abriu momentaneamente um caminho para seguir; simplesmente foi cambaleando através dele, tropeçando e caindo nas sarjetas, mas sempre avançando por aquele caminho noturno. Caminhou um certo tempo na escuridão que parecia separar as coisas do tempo. Chapéu para trás da cabeça, dum jeito boêmio, seu olhar entorpecido tentava reconhecer as ruas por onde passava. Logo reconheceu o contorno escuro dos morros cariocas.
As favelas. A gente humilde. Os necessitados.
Escorou-se num poste, com as mãos nos bolsos das calças amarrotadas.
- Para o diabo com o centenário da independência! - grunhiu com a voz pastosa de cachaça e loucura.
Cem anos haviam passado desde que no Ipiranga houve o grito de Independência ou Morte. O que mudou para os pobres, os explorados, para a gente humilde? Todos continuam escravos! Seja em 1822, seja naquele ano da Semana de Arte Moderna na mesma São Paulo do grito do Ipiranga... todos gritam, mas somente quem tem muitos contos de réis é que impõe o seu grito para o resto. Foi assim no Ipiranga. É assim nas fábricas onde os patrões gritam para os empregados. E lhe bate um medo sobre o quanto tudo isso é hereditário, como propõe a ciência positivista que classificou todas as coisas segundo Darwin e segundo as implacáveis leis naturais...
São muitos os tipos de grito. O seu grito é contra a loucura que herdou do pai, da loucura que pretende esquecer através das muitas garrafas de Parati, que lhe fazem ver coisas fantásticas, como por exemplo, que talvez não esteja mais no centenário da independência, mas num ano muito, muito posterior... que talvez esteja cem anos à frente do seu tempo, num delírio sem sentido e sem razão, igual à época que esteja passeando como um fantasma bêbado. Cem anos à frente de 1922. A loucura lhe põe visionário como um Júlio Verne mestiço.
E, graças a isso, ele vê pessoas no morro, usando estranhas armas, muito mais avançadas do que qualquer coisa que foi usada nas trincheiras da recente Primeira Guerra Mundial - conforme ele ficou sabendo pelos jornais. Elas atiram contra máquinas voadoras de um tipo que ele não sabe com que comparar, mas que fazem um barulho horrível e que conseguem ficar paradas no ar, de maneira incompreensível. As máquinas voadoras possuem portas por onde seus ocupantes revidam aos disparos com outras armas estranhas. Ele vê muitos mortos, culpados ou inocentes - isso é indiferente, pois todos morrem nessa guerra impressionante, sendo chorados por mães de aparência humilde. Vê também as pessoas ricas andando em veículos enormes, de aparência indescritível e cara, vê então moleques magríssimos, sem camisa, fazendo malabarismos como animais de circo na frente desses veículos, e então um vidro abaixa e uma mão lhes atira algumas moedas, decerto de tostões. Vê gente catando lixo, gente comendo lixo, gente dormindo no lixo. Vê a miséria e a indiferença à miséria.
Não! o futuro não pode ser assim! Não pode! Ele sempre gostou dos livros de Júlio Verne, que lhe trouxeram uma centelha de esperança nas eras futuras. Era-lhe inadmissível que até isso lhe fosse negado! Maldita loucura! É impossível que o futuro seja tão triste e tão sujo quanto a visão que ele está tendo! Não é possível que os ricos continuem a explorar os pobres para sempre! Saber que haverá favelas cem anos no futuro era cruel demais, impensável demais; certamente sua doidice havia definitivamente se aliado ao seu alcoolismo para criar aquela dantesca visão. Aquele era o autêntico "cemitério dos vivos".
Morreria naquele mesmo ano de 1922, tão desiludido quanto seu personagem Policarpo Quaresma.
Nota:
Cem anos no futuro, seus livros eram usados nos vestibulares que fabricariam os diplomas da burguesia que perpetuaria aquele estado de coisas - ainda que essa burguesia passasse em si o verniz do politicamente correto. Pois a gente humilde, que sempre fora tema dos seus escritos, que sempre encontrou em sua literatura uma voz de denúncia, rebeldia e arte, não ligaria a mínima para sua literatura. Ainda bem que isso ele não chegou a ver.