Já não era mais o mesmo desde o dia em que abandonara o velho trabalho que passou a vida toda pensando amar. Hoje era o grande dia de sua vida, nunca esqueceria esse dia 29 de março de 2048, sentia-se como um jovem recém formado saindo da faculdade para enfrentar a vida, cheio de esperança e expectativas.
Quando iniciou sua vida profissional, na década de 90, foi difícil largar a música, os amigos, a vida noturna, os bares. Mas não tinha outra escolha, precisava abandonar o sonho de vencer um grande festival de música, não poderia ficar tocando em bares a vida toda, correr atrás de uma carreira artística seria quase impossível, já que a concorrência sempre foi muito grande, não poderia passar o resto da vida procurando uma oportunidade para começar a busca pelo sucesso, já estava com vinte dois anos, precisava de um trabalho sério, a namorada já falava em casamento; Mas como? Se não tinha ainda um emprego ou ao menos qualquer fonte de renda. Além do mais, tocar era uma coisa normal entre os adolescentes - todos nessa idade sonham em se tornarem cantores famosos um dia, puro sonho - o melhor era procurar um emprego na área que acabara de se formar, mesmo passando toda a festa de formatura da universidade analisando e pensando mais na banda que ali estava a tocar, do que nos cinco anos de engenharia que acabará de findar.
Não queria para si, passar o resto da vida tocando em bailes de formaturas... E quando ficasse mais velho, tocaria o que? Cobraria quanto? Alguns trocados? Sentiu medo. Seria como esses "Elvismaniacos" vestidos a caráter, tocando para jovens recém-formados embriagados a zombar-lhe. Não! Era hora de pensar na vida. Seguir em frente. Trabalhar, casar, constituir família.
Conseguiu antes mesmo do esperado um bom emprego, fez carreira, obteve êxitos, grandes negócios, boas oportunidades, claro que não conseguiu perceber algumas outras oportunidades na hora certa, mas mesmo assim aproveitou a maioria das que apareceram. Casou-se, teve filhos, adquiriu bens, casas, chácaras, carro importado, tanta coisa que mal conseguia tempo para aproveitá-las, cumpriu durante anos uma rotina que na verdade não sabia exatamente se realmente gostava ou não, mas era a vida, sabia que nem tudo é felicidade, nada é fácil, e todos temos nossas obrigações a cumprir. Mesmo assim nunca deixou de tocar, fazia isso como um hobby, nas festas de família ou em qualquer oportunidade que lhe aparecesse, não podia ver alguém segurando um violão, cansou de escutar elogios dos amigos, parentes e até dos desconhecidos.
O tempo passou, conseguiu a já sonhada aposentadoria, não tinha que se preocupar mais em trabalhar, afinal fazia parte dos 5% dos aposentados brasileiros que não precisam mais continuar trabalhando para sobreviver, sentiu-se realizado, batalhou a vida inteira por esse momento, agora era só descansar e esperar o tempo passar, para não dizer "esperar a morte chegar".
Pode se dedicar mais ao seu passatempo preferido, tocar violão em qualquer lugar que desse vontade, nos bares, nas festas e em casa a qualquer hora. Até que um velho amigo dos tempos de universidade resolveu por brincadeira inscrevê-lo no mais importante festival do país, a principio por brincadeira ou incentivo para alegrar o amigo. Foi classificado, mas chegou a pensar em não se apresentar, claro que os amigos não deixaram que fizesse isso... Não foi nenhuma surpresa para todos, a não ser para ele mesmo, que conseguiu o primeiro lugar com méritos. Daí para frente foram convites e mais convites para programas de televisão, rádio, entrevistas para jornais e revistas, pedidos de grandes cantores para gravar suas músicas, etc...
Hoje 29 de março de 2048, aos 73 anos estava assinando um contrato milionário com uma gravadora de porte internacional, pelo direito exclusivo de suas composições por um período de três anos com prioridade de renovação após o término. Agora só resta rezar para o tempo passar bem devagar e torcer muito para que a morte demore a chegar, pois uma nova vida está apenas começando para este homem.