Andaluzia, Adriana e Amanda estavam sentadas quase em círculo, de uma forma que as três podiam se ver ou até mesmo se tocar. O hálito e a respiração, as três mulheres sentiam uma das outras, de uma forma apurada e bem forte. Elas estavam fazendo tricô com uma praticidade de fazer inveja a qualquer outro mortal, dentro ou fora daquele ambiente familiar. De vez por outra uma interrompia o trabalho para ajeitar os fios dos cabelos que teimavam em cair-lhe nos olhos; uma outra deixava cair a agulha quando de um ponto mais sofisticado; a terceira cantarolava uma música antiga, talvez do tempo de criança.
O local onde estavam era uma sala ampla, sem muitos móveis.
Quadros pintados a óleo dependurados nas paredes. Retratos das três em preto e branco, enquadrados em simples molduras ficavam sobre a mesa de canto. Um gato dormia em um dos estofados confortáveis, que de vez em quando abria um dos olhos embriagado de sono para depois fechá-lo lento.
- Qual foi a última vez que você foi à rua, Amanda?
Perguntou Andaluzia, a mais velha de todas, sem tirar os olhos do trabalho.
- Há muito tempo. As coisas mudaram muito de lá para cá.
- Por que você acha isso? -Adriana complementou, com um
simples sorriso.
- Porque tudo nesta cidade muda: uma rua, um viaduto, uma lei, uma regra. Muda, também, para melhor, para pior.
- Lembra do que comprou em meio àquela multidão de gente, de vozes, de cores, de negócios feitos a todo vapor?
- Sim, por que não? Comprei o mais lindo espelho que nossa casa possui.
- Sim, claro - disse Andaluzia.
- E você, por onde andou nesses últimos dias? - Arrebatou.
Amanda para sua interlocutora, enquanto que Adriana procurava no chão o novelo de lã que caiu do colo, rolou pelo soalho, enquanto que o olho do gato abriu preguiçoso, despertou-se de vez e pulou em cima do novelo e dificultou as coisas para a dona dele.
- Você não se lembra? Fui ao Estádio ver o meu time favorito.
- Ganhou?
- Ganhou ... Claro que ganhou!
- E você Adriana, conte-nos sua mais nova aventura.
- A ventura? - Indagou aflita a do meio - a última é esta para
encontrar o novelo de lã.
- Esta não é novidade. Conte-nos outra - elas sorriram.
- Foi quando saí da igreja da Matriz em que me deparei com
aquele belo rapaz.
- Por favor, Adriana, conte-nos.
As duas irmãs pararam de tricotar, atentas à voz da outra. O gato ronronava no sofá, alheio às conversas. Decerto já sabia de cor das histórias de suas donas.
- Aquele belo rapaz tomou-me da mão, assim sem mais nem menos e numa gentileza sem igual fez-me companhia por todo o trajeto: da porta da igreja ao último batente da calçada. O seu perfume, a voz, o hálito, a maciez da pele deixaram-me nas nuvens, mais alta do que a torre da igreja. Nunca me esquecerei das suas amáveis palavras: "Você tem uns lindos olhos". Disse-me ele quase ao meu ouvido. Durante o passeio falou-me dos seus problemas, aliás, muitos problemas. Eu não sei por que, minhas irmãs, as pessoas sempre que se deparam comigo vêm falar dos seus problemas. Falou-me de tudo. Agüentei. Falou-me até de uma doença.
- Que doença?
- Não disse ... Acho que inventou para se igualar a ... Vocês sabem!
- Quando chegaram na calçada, o que aconteceu?
- Ele jogou aquelas palavras cruciais: "por que você usa óculos escuros, para não mostrar esses lindos olhos?"
- Ah! Paciência minha irmã - consolou a mais velha.
As outras duas voltaram ao trabalho, inconsoláveis nas lamentações. A agulha de uma delas caiu, retiniu e foi parar sob a mesa de canto. O gato abriu os olhos, viu quando uma das irmãs se agachou e tateou pelo chão em desespero a procura da agulha.
O sol forte de quase meio-dia invadiu a janela iluminando a sala. Somente o gato fechou os olhos ao clarão.