II CONCURSO NACIONAL DE LITERATURA
ARTI- MANHAS
" PRÊMIO LIMA BARRETO "
MEDALHA PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

DINORÁ COUTO CANÇADO


Linda... e  Bela...

 

A cidade é cenário de acontecimentos comuns à maioria das cidades brasileiras, no interior de qualquer estado. Tem igrejas, tem comércio, tem escolas, praças, hospitais, profissões que são motivadas por pessoas especiais e gente alegre por ser parte disso tudo. Também tem problemas, claro. Neste ano, no dia 5 de junho, será comemorado seu cinqüentenário. Com o tempo, apesar da poeira e do barro em época de chuva; apesar do calor da maioria dos dias, substituído pelo frio no meio do ano; dos percalços da adaptação; do tanto de saudade das pessoas queridas que foram deixadas para trás; com o tempo, as pessoas se uniram e criaram um vínculo de irmandade, interação de princípios, cuidado recíproco de gente com gente que é especial.  Porque só quem chegou aqui, no início de tudo, sabe contar as dificuldades, as descobertas. Aos cinqüenta anos da cidade, tem-se o equilíbrio e o cotidiano comuns à maioria das cidades brasileiras, quando se olha de fora. Para quem viu brotar cada pedacinho, no entanto, é possível ver um brilho diferente, refletido nos olhos das pessoas pioneiras.

O Santuário, no centro da cidade, costuma ser local de alegres encontros, de pessoas que se permitiram pertencer ao lugar e, mesmo depois da aposentadoria, mantiveram-se por aqui. Fica ao lado da Administração e em frente a uma Escola de Ensino Médio, que divide espaço com o Teatro, com Bibliotecas e com a Direção Regional de Ensino, palco do nascimento e solidificação de amizades doces e felizes, entre pessoas que se dedicaram à educação e à cultura.

Lembro do quanto uma amizade é valiosa, quando olho para duas amigas especiais, que partilham comigo a comunhão de domingo, na missa da nossa matriz. Uma delas, mais caladinha, meiga, retornou ao trabalho, depois de aposentar-se. Desenvolve suas habilidades em instituição renomada, bem distante da cidade onde mora, a cerca de 25 km. Todo dia se desloca para o centro da capital, com disposição, com pique de iniciante, animada e engajada na sua profissão de educadora, lidando com cursos profissionalizantes, em seu trabalho atual.

A outra, extrovertida, falante, sensível, lado humorístico bastante acentuado, após a aposentadoria, bem ativa na área cultural, atuou como orientadora educacional em conceituado colégio da rede privada, escola-destaque nos desfiles cívicos, realizados todos os anos, por ocasião do aniversário da cidade. Lembro-me de vê-la, desfilando pela Avenida Comercial, acompanhando os alunos da escola, comprometida e feliz, cumprindo seu papel de pessoa que acredita no que faz.

 Gosto de ver que a amizade das duas tem um nó mais forte, envolvendo-as. São praticamente inseparáveis. Onde está uma, vê-se a outra: uma se fortalece na outra, que acabam enriquecidas e o benefício é mútuo, pois o sentimento que as une, ajuda-as a superar barreiras, a aliviar tristezas profundas que a vida, de vez em quando, coloca à frente de tudo que é ser vivente.

 Os bate-papos informais, após as missas dominicais, já viraram rotina, uma rotina agradável. De vez em quando somos quatro, às vezes, mais. A turma é grande. O tempo é que é insuficiente. E, quando a gente desfruta dessa rodinha, sai recompensada, feliz, abastecida de bons sentimentos, que só as amizades verdadeiras, que se sustentam na fé, conseguem transmitir. É quando relembramos os anos vividos no sistema educacional, ou falamos do cotidiano.

A dupla inseparável era ativamente comprometida e lotada no setor de Cultura, da Direção Regional de Ensino, instituição responsável por mais de 60 escolas públicas da cidade, antes da aposentadoria. Isso, há mais de dez anos. Experiências vivenciadas ao longo de suas carreiras, como educadoras culturais, permitem que continuem nesta nobre missão, pois em quaisquer situações, elas se fazem presentes.

A rotina é um mecanismo de defesa que percebemos de grande utilidade para o nosso equilíbrio diário. Mas, quando ela é mudada, provoca sobressalto e até preocupação. Não foi diferente no único domingo, em anos, em que a ausência das duas fez soar o apito da angústia. 

Entre nós, aposentadas que não se rendem a serem inativas, a corrente da amizade e da solidariedade se fortalece: surgem ações solidárias e promovemos eventos de considerável alcance, para minimizar as dificuldades da comunidade carente. À saída da missa, conversei com amiga comum, também preocupada com a ausência das duas e aproveitei para divulgar um Bazar Literário que aconteceria no outro dia na Biblioteca Braille da cidade, localizada bem de frente ao Santuário onde nos encontrávamos, no Centro Cultural Teatro da Praça.

O resto do domingo, bastante atribulado com os afazeres com a família, não me permitiu remoer a preocupação com minhas amigas. Mas, à noite, já na cama, organizando-me, mentalmente, para o dia seguinte e para as atividades na biblioteca, tornei a sentir aquele aperto de previsão de mudanças, que é comum sentir, e que, graças a Deus, nem sempre se concretiza. Resolvi que era tarde para ligar e saber notícias. Cansada, dormi e tive noite agitada de sono intranqüilo.

O dia surgiu chuvoso e cinza. Realista, fiz minha cabeça para entender que aquilo era sinal de estação de chuva. Nada além. E rumei para o local onde aconteceria o bazar.

Que surpresa agradável ao ver que, assim que pus os pés na Biblioteca, as  amigas tinham deixado, pela manhã, enorme quantidade de peças de roupas, calçados e bolsas, em ótimo estado de conservação, contribuindo, imensamente, com o sucesso do 1º Bazar Literário da Instituição. O evento durou o dia todo e, já à tarde, em momentos em que a mistura de vestuário com a literatura deixava evidenciar alegria e prazer nos rostos dos participantes, pude pôr em pratos limpos as razões da ausência na missa do domingo e contar para o grupo de trabalho da Biblioteca a preocupação do dia anterior. Uma pequena mudança de planos, a decisão de ir a outro horário de missa, combinada entre as duas, no sábado, pois se falam todos os dias, provocou alvoroço entre as amigas que gostam de vê-las e de compartilhar a energia que espalham ao redor de si.

Bela...cada dia mais linda e Linda... cada dia mais bela, continuam agregando amizades à sua volta, fortalecendo a fé tão buscada nos dias de hoje, honrando nossa cidade com pequenos grandes gestos, ambas fazendo a sua parte, com bastante dignidade... São essas as palavras que iniciam os nomes das minhas amigas. Bela... e Linda... acrescidos de complementos, enquanto o primeiro nome rima com uma das mais belas obras de Da Vinci - Monalisa, tendo também o mesmo número de letras; o outro nome se une à palavra que remete a uma das paisagens grandiosas que Deus criou para manifestar Sua presença - o mar.

 

 

 

 

 



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