II CONCURSO NACIONAL DE LITERATURA
ARTI- MANHAS
" PRÊMIO LIMA BARRETO "
MENÇÃO HONROSA

BRUNA LONGOBUCCO


A moça de vestido branco

 

A gente pensa que tem tudo, mas chega o tempo em que mudamos nossa percepção de tudo e nada e, entendemos que na verdade, é tudo que tem a gente. Porque por mais que se crie, se faça, adquira e construa, e embora as coisas – pequenas ou grandes, queridas ou não, que vem por carinho, amor ou gentileza -  façam parte de nossas vidas, um dia se descobre que o que tínhamos como nosso, foi apenas um empréstimo.

Sai de cena o mundo; com ele, os cheiros, os gostos, as pessoas.

A roda de brincar mudou e você não viu. As ruas correram desenfreadas, acenando-lhe da esquina, você não viu e a idéia do que não se sabe explicar invade a certeza.

Agora, você navega em outros rios e chega a um lugar que, sabiamente, alguém chamou de terceira margem.

A existência furtou-lhe a cena... sorrateiramente, num piscar de olhos, eis um novo cenário diante de si.

Certo dia, Carlos de Acouchier teve essa impressão. E, lutando contra o cansaço, acompanhou a moça que caminhava pelas ruelas da cidade litorânea.

Sinuosa, além do longo vestido branco, nada mais. Pés descalços, continuava seguindo impassível, como se caminhasse além das pedras, do tempo, da areia.

Carlos pensou que ou a visão ou o cansaço lhe traíam, mas não! Não podia ser... os cabelos longos ele viu com perfeição. Dourados, refletiam os raios de sol.

Contudo, a face, o olhar, a expressão, não conseguiu ver e, por mais que se apressasse, a jovem continuava distante.

Às vezes, a brisa serena trazia um suave perfume de lírio até o idoso escritor. Fato que o deixava cada vez mais intrigado. Era um tocar suave, incorpóreo e inatingível.

Sutil, a moça não se apressava, não corria... era o mesmo compasso que a levava. Nesse constante ir, Carlos acreditou ser ela eternamente jovem, invencível, um sopro do céu. Algo que trouxe aos seus últimos passos, o frescor da primavera.

Ele entendeu que os anos eram agora momentos, os acontecimentos, singelas lembranças, os dias infindáveis, meros segundos.

Nas vielas da cidade, Carlos de Acouchier olhou para o que não era interior pela primeira vez. O escritor sentiu o chão... deixava os mundos e lugares que criou com a imaginação apurada. Falava a verdade de que seu próprio corpo tolhia-lhe os movimentos. Afinal, tornara-se parte de sua própria obra.

E, novamente, procurou a jovem com o olhar. Veio igual distância como resposta.

O escritor aprendeu a brincar com a dimensão do perto e do longe.

Quando enfim avistou a praia, sentou-se sobre algumas pedras e permitiu-se divagar. Ponderou ao pôr-do-sol, frente às cores que inundavam a orla marítima. Concluiu que não haveria lugar mais perfeito para se despedir da existência.

Então sorriu... inesperadamente, a mesma jovem que perseguira em noções atemporais, estava bem ao lado seu.

Uma luz que não soube identificar não permitiu que visse seu rosto, entretanto, sentiu que poderia tocá-la e pertencer a um lugar, que antes não era possível. A realidade de sua vida não era a de ontem, mas o brilho que lhe invadiu a visão, trouxe uma promessa que definiu como sendo irrecusável.

Quando o escritor se levantou, nem ele, nem a praia eram os mesmos. E, feliz, uma criança corria na direção do mar, sorrindo e brincando com as ondas.

No céu, as gaivotas teciam desenhos entrelaçando as nuvens. No chão, a algazarra das famílias que visitavam o litoral aos finais de semana.

A criança continuou correndo até que alguém fechasse a janela e a perdesse de vista. Porém, no ir e vir do tempo, seus sorrisos pareciam durar uma eternidade, até que novamente, o que os homens diriam ser um ciclo, virasse a página e, num novo início para o final, trouxesse o escritor de volta.

 

 

 

 

 



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